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A granja

Num imenso balcão, Embora ventilado e cheio de verde à sua volta, Galinhas disputam. Este é um ambiente diverso do que se vê normalmente. Não são todas iguais, brancas. Há galinhas de todos os matizes: vermelhas, pretas,         marrons, brancas. No seu linguajar monossilábico, Parecem discutir. Uma tenta cacarejar mais alto do que a outra. Estufam o peito. Batem asas. Brigam entre si, querendo dar razões às suas ideias, Quando não percebem que são todas elas,           simplesmente, galinhas.           todas, condenadas, à princípio. Um homem de botas as visita. Veem nele um tipo estranho:           O homem que traz a comida           e a água — o que o transformou em seu líder. Ele também anota números em uma placa, Como...

Nas ruas desertas do meu sonho

Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme. Ninguém lá está, senão os mendigos. Miséria carregada de tristeza e abandono, Como fantasmas vivos De mãos sujas e alma turva. A rua é sua penúltima morada Antes da morte definitiva. — Se é que podemos afirmar que estão vivos. A bebida os consome por dentro, Mas é a droga que os enlouquece,           que os cerra na sua loucura, Onde não há fome ou frio. Aceitam, assim, a viagem sem volta. Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme. Dorme porque sua alma está entorpecida. As contas para pagar,           os impostos — muitos impostos, O medo do desemprego,           a violência, Entorpecem a alma do meu país. Ninguém olha para a janela ao lado. Sequer abrem a janela do carro Para ver o que se passa           co...

Vagas Tristes

Prestai atenção! Não escutais ainda ao longe o rumor das vagas a bater nos cascos dos negreiros? Suas espumas rebatem sobre nós como lágrimas tristes. Os grilhões não existem mais, mas ainda pesam sobre a nossa história. Os açoites já não ferem a carne, mas estalam como palavras que doem na alma. Coragem irmãos, coragem! Lembrai-vos dos vossos antepassados que lutaram pela liberdade a qualquer custo. E agradecei à ciência que, a despeito de nossa soberba e arrogância, Nos colocou todos em pé de igualdade. Não vos enganeis. Não estais sozinhos. Junto de vós há outros irmãos em humanidade Que lamentam profundamente o vosso passado de dor e miséria; Que se envergonham deste vexame histórico, - A subjugação de um povo por outro - Da mentira secular da superioridade calcada na visão de superfície, Quando na essência, somos todos apenas humanos. O vosso trabalho agora é para o futuro. Plantai as sementes hoje que florescerão amanhã. Sede honestos convosco mesmos, Não vos ...

Ao Brasil, perdão!

Oh Pátria minha! Uma vez mais peço-te perdão. Já se passam séculos e continuamos a fazer o de sempre: roubar-te! Sim, porque ao absolver ladrões implicados Mostramos que estamos todos do mesmo lado. Todos sonhamos acordados com o futuro que não chega jamais! Nossa inércia é monstruosa. Nada mais nos indigna. Nem mesmo nossa justiça, que parece mais afeita a ladrões de galinhas. Estamos anestesiados pelos odores pestilentos de nossa pocilga moral, Confundidos pelas notícias propositalmente desencontradas, Abatidos, fatigados pelo labirinto de problemas ditos insolúveis. Respiro fundo e sonho: Como poderia ser diferente se tudo funcionasse! Mas as malas de dinheiro não carregam valores para matar a fome, Não compram remédios, Não pagam professores. Tudo continua a repetir-se como antes, Na hereditariedade das capitanias e nos bigodes dos coronéis. O luxo é para poucos! Continuamos, entretanto, anestesiados, Assistindo a tudo como um novo capítulo de uma novela, Como...